Dos vários nós que enredam as literaturas indígenas

26/09/2019

Tradições milenares ainda pouco conhecidas. Para Mauricio Negro, esse é o panorama das culturas indígenas no Brasil. O autor do lançamento Nós: uma antologia de literatura indígena explica que compreender as manifestações culturais dos nativos é compreender o nosso próprio passado e, assim, o destino do nosso país. "Não há futuro para nós sem essa revisão e aprofundamento dos vínculos. [...] Tudo depende de um redesenho de país, que considere um território imenso ocupado há pelo menos cinquenta mil anos", completa.

Considerando sua trajetória profissional, que há algum tempo se relaciona com questões de identidade e etnia, o ilustrador concebe o livro como um modo de contribuir para o debate acerca da preservação dessas tradições. Como forma de registrar essa parte tão importante da história e da cultura nacional. Ele pensa a maneira como os diferentes povos se relacionam com a natureza e, a partir de recursos imagéticos, o conta. Assim, organiza quais os pontos de convergência entre as etnias e o que há de particular em cada uma delas.

 

 

Da sabedoria antiga, do contato com as raízes, do reconhecimento do indivíduo e do coletivo que movimenta as relações sociais, Nós chega para atar algumas pontas soltas no entendimento dos povos que formaram e formam o Brasil. A partir da visão de quem por muito tempo foi referido como outro/estrangeiro na própria terra, revela-se o comum. Aponta para um outro tratamento com o ambiente. 

Para saber mais sobre o processo de escrita do livro e a relação do escritor com a temática indígena, leia a entrevista completa a seguir. 

 

***

 

Como se deu a idealização de Nós? Também poderia contar um pouco sobre o processo de seleção de cada uma das histórias?

Mauricio Negro - Senti primeiro o desejo de organizar uma coleção de obras indígenas. Isto é, de livros com conteúdos e autores indígenas. Eu já tinha sido coordenador editorial de literatura indígena e gostei da experiência. E tenho décadas de envolvimento com os mais variados projetos relacionados às questões identitárias, etnorraciais e com foco socioambiental, como ilustrador, designer, escritor, palestrante, mediador ou coordenador. Colaborei com muitos livros, escritos por indígenas ou por antropólogos, pesquisadores e indigenistas. Também participei de muitos eventos, pelo Brasil e no exterior, sobre arte e literatura indígena, afro-brasileira ou popular.

Uma reunião de textos foi antes facilitada pelo chamamento do Edital PNBE Indígena de 2015. Abriu-se ali uma inédita possibilidade de compras governamentais em grande escala de obras indígenas, para o abastecimento de escolas e bibliotecas públicas brasileiras. Tão logo foi publicado aquele edital, fui procurado por várias editoras e autores indígenas. Consegui ajudar a viabilizar alguns livros. Ilustrei dois. Passado o entusiasmo e após o investimento de todos de produção, veio a grande frustração. A crise econômica se aprofundou e jamais soubemos o resultado da seleção de obras. 

Nesse período, recebi em confiança diversos textos de escritores indígenas, aos quais somei outros tantos. Numa certa altura, quando tive oportunidade, apresentei o projeto de uma coleção de obras indígenas para algumas editoras. Foi quando conheci a editora da Alfaguara, Daniela Duarte, que foi receptiva ao projeto. Para viabilizá-lo, porém, sugeriu transformar a coleção numa antologia de narrativas indígenas. E foi assim que Nós começou a ganhar corpo e, depois, alma. Achei boa a ideia de valorizar institucionalmente a produção literária indígena. Mais adiante, a Alfaguara e a Companhia das Letrinhas passaram a fazer parte do mesmo grupo editorial. Seguimos então tramando e trabalhando juntos. Submeti um bom número de textos, de autorias e etnias diferentes, às editoras reunidas. Todos esses textos foram por mim e pelos respectivos autores retrabalhados com apuro, visando sempre ajustá-los para obter a melhor fluência, sonoridade, essência, clareza, brilho, coerência e integridade de criação ou tradição.  

O apoio da equipe editorial da Companhia das Letrinhas foi importante. Tivemos conversas, trocas e alguns encontros para calibragem das intenções, diretrizes, ajustes e expectativas. Isso nos permitiu tirar o melhor partido de cada narrativa, entre outras seleções possíveis, porque todo material que reunimos é muito bom. Dá inclusive margem a outros volumes. 

 

 

Sobre seu processo criativo para as ilustrações, como foi feita a escolha da paleta de cores? De que modo se relacionam com o texto e com a temática do livro?

Mauricio Negro - A definição da paleta foi baseada genericamente na pintura corporal tradicional. O preto remete à tintura do carvão ou do jenipapo; e o vermelho ou laranja, ao urucum. Um ramo da planta, carregado de frutos, está representado na página 5. “Uru'ku”, em tupi, é "vermelho". E jenipapo, em guarani, significa "fruta que serve para pintar". A paleta mais restrita, com essas cores e seus meios tons, também tem a ver com o desejo de fisgar um público leitor diferente. A maior parte dos livros indígenas segue os padrões de formato, cores e número de páginas que estamos habituados a ver nos livros infantis. Nós preenche uma outra lacuna: no formato, acabamento, linguagem e robustez mira um leitor mais fluente, mas pode cativar os curumins e adultos também.  

 

Em que você se inspira ou se baseia para criar as suas ilustrações? Quais são suas referências?

Mauricio Negro - Cada narrativa pede uma pesquisa iconográfica em particular. Até porque os cânones, símbolos e signos variam de uma tradição para a outra. É a partir dessas referências culturais que tiro a devida licença poética para ilustrar. Ou seja, como ilustrador, eu preciso estar atento às especificidades de cada cultura antes de partir para a criação mais subjetiva. Isso implica também numa imersão na perspectiva alheia, em sentir como alguém sente, ver além de si mesmo, sonhar com outro. Uso todo o tipo de recurso para esse mergulho. Trabalhar com música ajuda na ambientação. No silêncio, a introspecção. Fontes seguras são imprescindíveis para as consultas. Leituras paralelas municiam. Encontros pessoais aquecem.

Raramente me perguntam sobre referências, é engraçado. Nem sempre um nome é mais relevante que a produção cultural coletiva de uma nação. Entre o povo Mehinaku, por exemplo, Uruhu Mehinaku é um craque. Mas esse povo tem forte tradição na produção de bancos, que são muito lindos. Temos em casa um banco de tamanduá bandeira esculpido pelo Uruhu, é de uma elegância ímpar. Admiro a produção imagética dos Ticuna também, as máscaras, os desenhos e as pinturas. O mesmo digo sobre os Huni Kuin, cuja produção é um assombro. O desenho para eles é um elemento essencial na beleza das pessoas e das coisas. Há artistas contemporâneos também atualizando a tradição, como o Grupo MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), reconhecido inclusive para além das nossas fronteiras. Há muito! Tem o artista multimídia Jaider Esbell (Macuxi), Denilson Baniwa e sua arte conceitual, entre outros. Na literatura tem por aqui a Ciça Fittipaldi, o mexicano Cuauhtemoc Wetzka... Arte aborígene, Inuit, africana e muitas outras expressões autóctones me atraem, pelos nexos que carregam, em sintonia fina com as suas tradições. 

 

Qual técnica você utilizou nas ilustrações?

Mauricio Negro - Monotipia foi a base na elaboração das ilustrações desse livro. Fiz as camadas independentes, depois as digitalizei em separado. A composição final, os retoques e a aplicação das cores foram feitos digitalmente. 

 

 

Há uma paisagem, em página dupla, como plano de fundo para apresentar o povo a que se refere a história seguinte. Num olhar rápido as paisagens são as mesmas, mas, olhando com atenção, percebe-se algumas diferenças. Pode falar um pouco sobre essa escolha? 

Mauricio Negro - Para cada narrativa, fiz uma ilustração síntese ou relacionada a alguma passagem em particular ou personagem. De certo modo, são imagens mais estáticas, que marcam um certo espaço cultural. O rio que você menciona é o elo de ligação entre as histórias, regiões, povos. É ele que sinaliza, nos intervalos, o próprio fluir do tempo. Atente à luminosidade. Perceba o período que vai da alvorada, que abre a história Mebengôkré Kayapó, chega ao entardecer, e vai até o cair da noite já próximo da narrativa Kurâ-Bakairi. Também muda a paisagem às margens do rio, surgem e desaparecem alguns animais, até o momento em que desponta uma coluna de fumaça e uma pequenina canoa na escuridão. O rio faz naturalmente a ligação entre as cosmogonias. É ele o sangue ou seiva que irriga todas elas. 

 

Para você, qual informação ou que tipo de conhecimento ainda falta e é urgente para os brasileiros em relação às culturas indígenas? 

Mauricio Negro - Sabemos muito pouco sobre as culturas ameríndias. Os Guarani, por exemplo, têm quatro mil anos de história. Boa parte da biodiversidade da mata atlântica se deve à intervenção da riqueza desse povo peregrino, que dispersou diversas espécies da flora amazônica. Quantas pessoas sabem disso? Temos que considerar que essas culturas produziram ao longo de séculos as soluções adequadas, que foram testadas e aprovadas, para melhor viver sob as condições nativas de temperatura e pressão. Isso se chama sabedoria, que nada mais é do que o conhecimento aplicado. O mais grave é que a sociedade que consagramos já até optou por trocar o conhecimento pela informação. Estamos particularizando as coisas cada vez mais, perdendo a noção do todo e as conexões que existe entre tudo.

Quem desconhece ou ignora a sua própria história fica oco por dentro. E esse vazio pode ser preenchido por qualquer apelo oportunista. A ideia de um Brasil monocromático e normativo, em vez de plural e diverso, é sintomática. Enquanto a gente não entender a dimensão das culturas ameríndias e sua relação com os biomas, jamais teremos a plena compreensão do vasto patrimônio natural e cultural brasileiro, sob crescente ameaça. Não há futuro para nós sem essa revisão e aprofundamento dos vínculos. Por isso, é urgente saber. Tudo depende de um redesenho de país, que considere um território imenso ocupado há pelo menos cinquenta mil anos. A estreiteza dos últimos quinhentos faz sentido para você? 

 

De que maneira o Nós dialoga com o momento que estamos vivendo agora em relação a todo descaso com as florestas (em especial, a Amazônia), as queimadas etc? Você se mantém otimista em relação àpreservação biológica e cultural desses ecossistemas?

Mauricio Negro - Tem gente que vai torcer o nariz. Mas gosto de brincar e dizer que sou pessimista desde criancinha. Acho o otimista basicamente um tolo. E aquele que se considera realista, um presunçoso. Ora bolas, a tal da realidade é uma construção! E sou mesmo apenas um pessimista. Passei boa parte da vida numa região de mata atlântica, cheia de bicho, planta e água. E sempre me incomodou a maneira urbana de viver, tão desligada sobre isso tudo, reduzindo as coisas à dimensão da mercadoria. 

Só os pessimistas, por outro lado, podem se surpreender. Amo quando me apresentam uma possibilidade que fui incapaz de imaginar, supor ou propor. Parafraseando o querido amigo e pensador indígena Aílton Krenak, minha perspectiva crítica sobre a humanidade, que se impôs sobre as demais sub-humanidades invisibilizadas, é sempre muito aguda. Estamos vivendo há tempos apartados da natureza, chamando os seus predicados de "recursos" naturais, tomando decisões unilaterais e ecocidas. Agora obviamente se intensificou, a moçada perdeu o pudor. Bebemos veneno. Vendemos veneno. Comemos veneno, enquanto alguns usam eufemismos e enchem os bolsos.

Tecnicamente já viramos o fio, afirmam especialistas. Há um milhão de espécie ameaçadas de extinção. Sem a umidade produzida pela Amazônia não haverá água no Sudeste e no Sul. Quem alimenta os brasileiros é agricultura familiar, e não o agronegócio industrial exportador. Há enfim um monte de histórias muito mal contadas. E todos perdemos. Pior ainda do que as queimadas é a pecuária extensiva. Já perdemos metade do cerrado. Só nesse vasto bioma existem sessenta tipos de frutas! Só te digo que o meu pessimismo não é do tipo paralisante. Muito pelo contrário. Nós está aí para comprovar o movimento de um inconformado.

 

 

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