Rio, o cão preto de Suzy Lee

03/12/2021

Histórias de animais de estimação abandonados ou malcuidados que encontram amor e cuidados com uma nova família sempre mexem com a gente. Quando uma delas é contada por uma autora que é mestre na arte do livro ilustrado e da narrativa visual, o resultado é o livro Rio, o cão preto, da autora sul-coreana Suzy Lee, lançado em novembro pela Companhia das Letrinhas.

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Capa de

 

Esse é o primeiro livro com texto da autora da chamada Trilogia da margem, composta pelos livros Onda, Sombra e Espelho, a ser publicado no Brasil. A narrativa apresenta aos leitores um cachorro que vivia preso e era negligenciado pelo dono. Uma família com duas crianças – Mar e Montanha - resgata o bichinho e dá a ele o nome de Rio: juntos, eles compartilham brincadeiras, carinho e companhia na casa dos avós das crianças. Rio não sente mais fome nem sede e tem muita liberdade. Quando os dois pequenos voltam para a cidade, Rio descobre o que é a saudade.

O cão Rio, que dá nome ao novo livro de Suzy Lee

 

E essa história, construída por meio do texto sutil e dos traços expressivos de Suzy Lee, aconteceu de fato com a autora. Nesta entrevista, que concedeu ao Blog por e-mail, ela fala sobre sua relação com cachorros, sobre o uso das palavras no livro, sobre levar os leitores às lágrimas e sobre o fato de que Rio, na vida real, era fêmea.

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Do coreano ao português

O livro foi traduzido direto do coreano pelo coletivo ARA Cultural, que é coordenado pela professora Yun Jung Im (FFLCH-USP) e por Luís Girão, especialista na obra de Lee. Sobre a opção pela tradução no masculino, Luis explicou ao Blog que não há, na obra original, qualquer indicador de gênero referente ao cão protagonista nem às crianças.

“Não houve uma discussão sobre gênero, apenas uma preocupação na manutenção da força subjetiva e personificada do nome dado ao cão: Rio. Na língua coreana, o título da obra seria algo como ‘Rio’ - no máximo, ‘O Rio’. Contudo, a pedido da própria Suzy Lee, o título em português precisaria seguir o título em inglês River, the black dog. O artigo de gênero por que optamos no título em português, "o cão preto", segue o gênero usado no título italiano ‘il cane nero’”, esclarece o pesquisador.

Vamos saber o livro com a própria Suzy Lee?

 

Em Rio, os leitores conhecem a história tocante e potente desse cão lindo. Você poderia contar a história da vida real que inspirou a criação literária?

Suzy Lee: Quase tudo na história foi o que nós, Rio e a minha família, vivenciamos. Rio era uma labrador preta pequena, porque seu antigo tutor não a alimentava adequadamente. Um dia, recebi a ligação de uma amiga que tinha resgatado Rio, e ela perguntou se a minha família podia ficar com ela.

Eu tive um cachorro quando era criança, e nós passamos 16 anos juntos. Sofri muito quando ele morreu, por isso, havia decidido que, a partir daí, nunca mais teria cachorro nenhum. Mas, depois da ligação da minha amiga e de conhecer a história de Rio, eu não consegui dizer não. Além disso, meus filhos ouviram toda a conversa e me pediram para ficar com ela! Então nós adotamos a cachorra, e meus filhos, que realmente se chamam “Montanha” e “Mar”, a chamaram de “Rio” – e nós vivemos momentos maravilhosos.  

Rio com as crianças Mar e Montanha, os personagens do livro de Suzy Lee


Você diz no livro que ele foi criado a partir de desenhos que você já tinha de Rio. Você precisou criar mais ilustrações ou ele já estava pronto desde o início com o material que você tinha?

Suzy Lee: Eu desenhava Rio de tempos em tempos porque ela era linda. Ela era tão preta e eu amava seus movimentos cheios de energia quando ela estava feliz (Rio estava sempre feliz). Na verdade, a minha ideia inicial para o livro era completamente diferente. Eu queria fazer uma série de livros que incluísse episódios engraçados dela com a minha família. Mas ela nos deixou muito cedo e o livro acabou se tornando perto e branco. Então, como eu fazia desenhos dela com frequência, algumas imagens do livro já estavam prontas e eu incluí outras que fiz depois, me lembrando dela.

 

Você pode contar um pouco mais sobre como surgiu a ideia de fazer o livro? Ele teve alguma relação com o fato de seus filhos estarem tristes na época?

Suzy Lee: Eu acredito que alguns sentimentos precisam de um tempo antes que eu consiga falar sobre eles, mas outros precisam ser falados logo antes que se dissipem. Eu achava que precisava me agarrar ao momento e aos sentimentos em relação a Rio num certo ponto. Queria colocar todo o meu coração nos traços rápidos e fixá-lo no papel. Meus filhos não gostaram quando fiz esses desenhos de Rio e os empilhei. Eles ficaram muito tristes e chateados ao ver as imagens dela. Mesmo agora, é muito difícil de ler o livro, mesmo que eu o tenha criado. Eu penso no livro de Rio como um diário para me lembrar dela – por isso fiz o livro num tamanho pequeno, que pode ser levado facilmente em todos os momentos.   

 

Este é o seu primeiro livro com texto publicado no Brasil. Por que você sentiu a necessidade de usar as palavras neste livro ilustrado especificamente?

Suzy Lee: Meus livros sem palavras – Espelho, Onda e Sombra – normalmente mostram uma história num tempo e num espaço limitados. E as imagens funcionam como pistas para os jogos visuais. O nome da protagonista não importa nem um pouco, e não é necessário conhecer sua história; apenas o que está acontecendo naquele dado momento é o que é significativo. Mas, no caso de Rio, cada palavra conta. O cachorro preto se torna Rio e ele vira parte da família quando ganha esse nome. A história define a forma e o estilo do livro ilustrado. É um jeito de funcionar completamente diferente daquele dos livros sem palavras.


 

Os leitores brasileiros ficaram muito tocados com o seu livro, com relatos de pessoas que chegaram a chorar com a história. Você soube de reações desse tipo em outros países também? Como você se sente ao saber que a sua história mexeu com as pessoas de maneira tão profunda?

Suzy Lee: Eu acredito que esse tipo de sentimento é universal e soube de muitos desses “relatos de choro” vindos da Coreia e da Itália também. Eu odeio todos os tipos de livros (ou filmes) que têm cachorros como protagonistas porque eles sempre me fazem chorar. De verdade, eu não esperava que fosse fazer um livro sobre um cachorro como esse (odeio isso!).  

Ilustração de 'Rio, o cão preto', livro de Suzy Lee

Nossa relação com cães e animais de estimação em geral é algo muito universal mesmo, uma conexão tão forte que mesmo uma história tão particular como essa é capaz de fazer as pessoas se emocionarem em lugares tão distintos quanto o Brasil e a Coreia. Como você enxerga isso?

Suzy Lee: Cachorros e crianças – eles são os mais frágeis. Há bem poucas coisas que eles podem decidir por conta própria. É por isso que cuidamos deles e os amamos tanto. Eles sempre tocam o nosso coração porque estão sempre dentro de nós como os seres delicados que são.

 

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