O futuro é coletivo! Conheça diferentes experiências de livros colaborativos

17/03/2023

Como surge a ideia de um livro literário? Ela nasce da cabeça de uma só pessoa ou pode ser conduzida a muitas mãos e muitos palpites? Envolve só os autores ou também tem sementes na imaginação fértil dos leitores? Não são muitos os livros coletivos que existem por aí, no sentido de serem livros colaborativos criados por um grupo. Mais comum é encontrar obras compartilhadas entre dois autores ou volumes com autorias coletivas, só que organizados por uma pessoa. Mas gestar um livro em colaboração criativa, com tantas expectativas e formas de conduzir as narrativas - ainda mais se o processo conta com a participação de crianças -, torna esses exemplares espécies raras - e muito interessantes de serem conhecidas. É o caso, por exemplo, de A carta de Moussa (2022, Brinque-Book), Histórias da Cazumbinha (2010) e de três livros assinados pelo coletivo Sabichinho: Quem manda aqui? (2015), A eleição dos bichos (2018) e A morte da lagarta (2022), todos pela Companhia das Letrinhas.

Conversamos com dois autores que se tornaram especialistas na arte da escuta infantil para criar coletivamente com a contribuição das crianças: Pedro Markun e Marie Ange Bordas. Cada um à sua maneira, ambos contribuem para plantar no imaginário social a importância de manter os ouvidos sempre atentos ao que as crianças têm a dizer. “A nossa prática surge de uma necessidade de conversar com as crianças sobre temas complexos”, diz Pedro.

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Os três livros colaborativos do coletivo Sabichinho, lançados respectivamente em 2022, 2018 e 2015. Todos eles foram produzidos em conjunto com as crianças, a partir de oficinas de criação

À frente do Sabichinho, um coletivo de autores formado por Larissa Ribeiro, André Rodrigues e Paula Desgualdo, Pedro se apresenta na bio de seu perfil no Twitter como: "Hacker que tem ideias doidas para mudar o mundo por meio da política. Só recebe ordens de duas pessoas: Maria e Tereza, suas filhas." Não por acaso, veio da paternidade a vontade de falar sobre política com crianças. “Ai, que bebezinho lindo! Caraca, como eu vou explicar pra ela o que eu faço? Como é que eu vou falar de política? Porque eu quero poder falar com ela sobre tudo”, brinca Markun.

Integrante da Bancada Ativista e ativista por transparência política, ele conta que o trabalho do coletivo começou antes mesmo de eles próprios se enxergarem como um coletivo. “Quando a gente começou a escrever Quem manda aqui?, não fazíamos ideia de que isso ia virar um projeto maior. No segundo livro, A eleição dos bichos, a coisa ficou meio “dos mesmos autores de…”. Então, quando a gente começou a escrever A morte da lagarta e o coletivo parou de falar “só de política”, chegamos à conclusão de que precisávamos de um novo nome para abarcar toda essa história”.

Somos um conjunto de pessoas que acredita que as crianças são seres capazes, complexos e que merecem uma literatura que sirva para abrir portas para debates complexos, em todas as idades. (Pedro Markun, autor do coletivo Sabichinho)

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Criar junto é conversar junto. E conversa requer escuta ativa

Para Pedro Markun, começar um movimento de escuta ativa com as crianças é mais simples do que parece: é escutar, reservar um tempo do dia e simplesmente ouvi-las. “É um processo de deixar demarcado, né? Abrir espaços para ouvir. Abrir espaços para que elas nos contem tudo aquilo que elas veem e percebem”, defende. “Eu falo em fazer ‘nada’, porque a gente invariavelmente tenta fazer ‘algo’, já sair preenchendo o vazio com alguma atividade e aí, em geral, ficamos tão entretidos com a própria atividade que a gente não escuta a criança. Então, desliga o celular e simplesmente se permita brincar. Deixe ela propor e conduzir a atividade, por uma hora que seja”.

Esse é um pensamento compartilhado pela artista multimídia Marie Ange Bordas, autora de diversos projetos literários feitos de forma coletiva com as crianças, como o Histórias da Cazumbinha, publicado pela Companhia das Letrinhas em 2010 e em co-autoria com Meire Cazumbá, o premiado Dois meninos de Kakuma (Pulo do Gato, 2018) e Manual da Criança Caiçara (Peirópolis, 2011). “É um aprendizado constante de humildade, de saber que pouco se sabe, e que todos temos o que aprender e ensinar, sempre renovar a escolha de não aterrisar de paraquedas nos lugares, entrar de mansinho, delicadamente, ter uma escuta atenta e afetiva, ser paciente e perseverante. Não perder a capacidade de se maravilhar com as pequenas coisas”, diz.

 

Mais que colaborativo: conheça a abordagem biomimética

Nos seus projetos atuais, Marie conta que tem expandido a ideia de colaboração e que agora é o ponto de partida: a sociobiodiversidade, as relações homem-natureza e a biomimética. O que pode parecer um nome complicado na verdade é um resgate de algo muito antigo e simples: o convívio harmônico entre todos os seres. "Agora, além da colaboração com as comunidades tradicionais e as crianças, entram em cena os cientistas e os animais", explica.

É por esse motivo que a escritora foi para a África do Sul: construir um guia de natureza para crianças da área rural de Buysdorp, uma vila no distrito de Makhado, na província de Limpopo. O projeto se chama Buysdorp Nature Guide - Living with the wild world around us. “Os próximos livros dessa nova série estão sendo tecidos com artistas de várias etnias locais, e dão uma roupagem contemporânea (e pós-antropocêntrica) a lendas tradicionais”, conta ela. "Algo incrível aconteceu neste projeto: a partir dele, das atividades e dos encontros, uma comunidade que vive há mais de 150 anos no mesmo local descobriu que vive cercada de animais selvagens que desconhecia", relata.

 

Etapa fundamental dos livros coletivos, o retorno às crianças depois de finalizado o projeto é comemorado com alegria na comunidade de Cachoeira (BA)

O ponto comum entre os livros que Marie conduz é, além do fazer colaborativo, também o cuidado em preservar os saberes locais, os contextos e incluir o processo de elaboração no resultado final. "Sempre me vi mais como uma artista-ponte, uma mediadora que utiliza a práxis artística para articular mundos-lugares-pessoas e, de quebra, tenta subverter um pouco a ordem dominante, que é uma ordem de privilégios, que infelizmente ainda define nossa sociedade", explica a autora – ou melhor, coautora, ao lado das crianças.

Não por acaso, o Histórias da Cazumbinha virou uma referência de livro para as crianças do Rio das Ostras na Bahia. “As novas gerações que estão sendo alfabetizadas lá conhecem o Histórias da Cazumbinha, e todo ano pedem para fazer 'um Cazumbinha' delas. Não só o livro, mas o processo de feitura do livro marcou a infância de uma geração de 'cazumbinhos baianos', que nunca antes tinham se reconhecido nas páginas dos livros”, conta a autora.

É um mal da modernidade. A gente vê, mas não enxerga; ouve, mas não escuta. Tem cada vez mais pessoas desligadas do seu entorno. Saber observar é fundamental. (Marie Ange Bordas, autora)

O escritor e ativista Pedro Markun, do coletivo Sabichinho.

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Benefícios da criação coletiva

Já Pedro defende também que, ao escolher levar determinados assuntos para as crianças, nós, adultos, nos obrigamos a uma certa mediação daquele tema, que é benéfica para todos e está no centro de um processo verdadeiramente coletivo de criação. “Uma coisa é você conversando em casa com o seu marido e criticando o que você viu no jornal, na internet ou falando sobre como o mundo está agora. E outra é a mensagem da política como a gente gostaria que fosse, a política como ela deveria ser, que normalmente é o que você vai fazer quando vai modular uma conversa para uma criança”.

“O desafio maior em alguns lugares é o de tentar descondicionar olhares sobre si mesmo - seus corpos e territórios. Parece clichê dizer, mas segue sendo verdade, quanto mais expostos à cultura globalizada acachapante (através da televisão, internet, etc), mais dificuldade tem de perceber a riqueza de seu próprio entorno e apreciar o local, o autêntico”, diz Marie. "Essa é uma grande potência da infância: a capacidade de maravilhar-se, de rapidamente reverter um estado de ausência em pura presença", completa. 

A autora Marie Ange Bordas com as crianças do Baixo Amazonas, em um de seus projetos de livro coletivo

 

O futuro é coletivo. E o presente?

O livro A morte da lagarta, lançado em 2022, nasceu dois anos antes, fruto das inquietações do grupo sobre os rumos da humanidade em função do surto global da Covid-19. Apesar de ser resultado de uma profunda incerteza de como o mundo passaria a ser “depois” da pandemia, é um livro leve e simples, e carrega a semente de uma discussão séria que atravessa todo um pensamento de revolução social a partir do luto: como vamos lidar com as mortes que nós mesmos causamos?

Perguntas como essa movem as criações coletivas, porque é em grupo que percebemos limitações que são de todos, e podemos nos apaziguar com a falta de respostas que tantas vezes assombra o “mundo adulto”. “Ninguém tem repertório para falar sobre isso direito. Não queremos trazer resposta para nada. Mas talvez poder começar a construir repertório sobre esse assunto”, explica o escritor.

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Para Pedro, parte de nosso afastamento das criações coletivas e da própria escuta das crianças tem raiz no individualismo dos tempos atuais. “A maior dificuldade de criar com as crianças coletivamente é que a gente vive numa sociedade individualista”.

A grande dificuldade é a gente parar de se atrapalhar, parar de achar que criança é uma responsabilidade do indivíduo ou da escola. É uma responsabilidade de todos (Pedro Markun, autor do coletivo Sabichinho)

Da mesma forma, nos projetos literários de Marie, há uma preocupação de construir o que ela chama de “memória coletiva contemporênea”. "As crianças tornam-se catalisadoras de um processo de revitalização do interesse pela cultura e identidade local de forma orgânica e natural”.

“O que mais surpreende nesses encontros é a acolhida dos mais velhos. Uma alegria acompanhada de um alívio de que um pedaço de "não ir mais embora de vez, sumir para sempre", como disse Vó Luzia no Mondongo (Pará), "agora já posso morrer". É isso o que mais me marcou nesses anos todos de trabalho colaborativo, como uma atitude respeitosa e engajada pode mudar toda uma dinâmica de relações", finaliza a escritora.

 

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