A literatura como cicatrização: infância, memória e ancestralidade

26/10/2022

Poder. Este foi o tema da mais recente edição do Folio, o Festival Literário Internacional de Óbidos, que tomou as ruas da vila medieval próxima a Lisboa, capital portuguesa, em outubro. Ao percorrer as coloridas casas centenárias, os visitantes deparavam-se com um castelo de pedras e, ao pé da majestosa construção, uma pequena igreja construída no século XII, batizada de Igreja de Santiago. Mas aquele espaço sagrado não acolhe mais fiéis, e sim leitores.

Desde 2020, a construção, que ainda mantém sua arquitetura original, foi recheada de livros e transformada em uma livraria, a livraria Santiago. E foi ali que ancestralidade, política, memória e infância foram o tema central de um bate-papo entre o angolano Ondjaki, autor de Bom dia, camaradasAvódezanove e o segredo do soviético, O voo do golfinho (Letrinhas, 2012) e Ynari (Letrinhas, 2010) e o brasileiro Daniel Munduruku, autor de Histórias de índio (Letrinhas, 1996), O homem que roubava horas (Brinque-Book, 2007), Kaba Darebu (Brinque-Book, 2002) e Catando piolhos, contando histórias (Escarlate, 2014).

Escritores reunidos na Feira Literária de Óbidos, Portugal: o angolano Epalanga (esq.), o brasileiro Daniel Munduruku (centro) e o angolano Ondjaki

Escritores reunidos na Feira Literária de Óbidos, em Portugal: o angolano Epalanga (esq.), o brasileiro Daniel Munduruku (centro) e o angolano Ondjaki (Foto do Instagram de Munduruku)

Em consonância com o tema central do evento, a obra de ambos os autores aborda o poder sob uma ótica muito particular: da infância e da memória. Algumas das histórias mais conhecidas de Ondjaki, por exemplo, narram a Guerra de Independência da Angola, que aconteceu entre 1961 e 1974, época em que o escritor era um menino com olhos atentos e pais guerrilheiros. A atmosfera do combate armado, mesmo que vivenciada na capital Luanda, em uma realidade de classe média, converteu-se nas lembranças que povoam suas obras de ficção e que hoje viajam pelo imaginário de leitores em todo o mundo.

Isso refletiu-se no encontro em plena igreja, em que os visitantes, em sua maioria brasileiros, portugueses e angolanos, ocuparam não só as cadeiras que preenchiam o ambiente, mas também subiam os degraus das escadas que levavam ao coro. Do altar, Ondjaki lembrou da difícil missão tomada por sua geração de escritores angolanos, posteriores à guerra e à literatura combativa de autores como Pepetela.

“Deram-nos um país livre”, comenta, em referência aos que vieram antes dele. “Mas ainda é preciso trabalhar. Há muitos ciclos de reconstrução de um país, e nesse sentido, a literatura é uma forma de reflexão, mas também de cicatrização.”

Memória, invenção e suas (des)fronteiras

Nesse processo, o recordar-se é um fator fundamental e que está sempre em reelaboração, mesmo agora, nos tempos em que vivemos. Com a popularização da internet, torna-se cada vez mais rara a especulação. Uma informação pode ser facilmente consultada na internet, em tempo real, ou até em um arquivo em uma nuvem. Uma simples pergunta como: “como era a sua irmã quando criança?” pode ser facilmente respondida, sem o esforço de lembrar. Uma fotografia encerra uma discussão.

É aí que reverberam os espaços em que é possível reinventar a sociedade. A literatura é um deles. “Há pessoas que fazem questão de ir na fronteira entre memória e ficção. Eu vou à procura da (des)fronteira”, explica Ondjaki, que se utiliza de causos do dia a dia como inspiração para alguns de seus escritos. “A pessoa nunca sabe se está a ficcionar ou se está a viver. É muita cegueira pensar que a vida real não tem ficção. Eu sou a favor de usar a ficção para inventar memórias. É meu direito, eu é que sei o que eu lembro.”

Em diálogo com a ancestralidade

Munduruku, educador e autor indígena com dezenas de obras publicadas, também trabalha nesse sentido. Ele busca em seus livros contar histórias dos povos originários e, assim, construir pontes com a sociedade ocidental. Suas histórias resgatam as vozes indígenas, esquecidas e silenciadas, e dialoga diretamente com a “história contada por aqueles que colonizaram o Brasil, que muitas vezes esqueceram de colocar as vozes dos povos originários dentro da História”.

A colonização aplicada no Brasil, segundo o educador, levou ao território uma forma muito específica de olhar a vida: uma forma linear, característica da cultura judaico-cristã. Dessa forma, outras visões de mundo, que veem a vida sob uma perspectiva circular e holística, foram desqualificadas ao longo do tempo.

 

Somos jogados para pensar num tempo que não temos e que está longe de nós. O passado e a memória já foram vividos, podemos criar histórias a respeito dessas experiências, mas o tempo futuro é uma ficção. Criamos histórias imaginando o que pode vir a ser. Isso é contrário ao pensamento circular dos povos indígenas, que está muito mais ligado à lógica da própria natureza, da circularidade, do voltar para trás para seguir em frente. (Daniel Munduruku, escritor e educador)

 

O agora que habita a infância

Assim também é a criança que habita as suas obras: circular. Ela traz em si o imaginário da natureza, do tempo, presente, do agora. Um imaginário que também está presente no educador. “O presente, para elas, é o mesmo que para mim. Então, como eu também me alimento disso, minha comunicação com ela é movida pelo imaginário”, lembra Munduruku.

O autor viveu esse afastamento do tempo presente na pele, quando passou a frequentar uma escola “na cidade”. Ali, foi ensinado a ser “civilizado”, palavra que era utilizada em contraposição ao ser indígena. Afinal, era preciso ser “civilizado”, abrir mão de sua ancestralidade, para tornar-se brasileiro. Isso só mudou quando reencontrou seu avô Apolinário, que acabou se tornando personagem em um de seus livros, Meu avô Apolinário (editora Studio Nobel). Esse foi um reencontro também com a sua própria ancestralidade.

 “Ele me ajudou a mergulhar na memória ancestral e caminhar pelo mundo ocidental sem perder minha raiz. Para mim, a escrita é uma forma de trazer as vozes que foram silenciadas ao longo do tempo, é um exercício de resistência, de recriação da memória e do passado e de dialogar com o presente.” É dessa forma que utiliza a memória em suas obras, na forma do olhar dos antepassados e na reverência ao esforço deles. “[Nós, indígenas] cumprimos nosso papel de atualizadores da memória ancestral, utilizando a literatura para que as nossas ideias continuem presentes questionando esse sistema.”

Para isso, o diálogo com o tempo circular da infância está sempre presente, em contraposição ao tempo linear. “O meu diálogo com criança é sempre o mesmo: para a criança de ontem eu fui ontem, para a criança de hoje eu sou hoje, para a criança de amanhã, eu vou ver ainda o que eu vou ser.”

(Texto de Luísa Cortés)

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