A importância de envolver as crianças na preservação das águas

22/07/2022

As crianças são facilmente atraídas pela água em suas mais variadas formas, seja o mar, a chuva, o rio, a cachoeira ou a poça. Por isso, preocupa muito que o nosso planeta água sofra tantas frentes de degradação por conta da ação humana: da quantidade assustadora de plástico que vai para os oceanos à falta de saneamento básico, sem esquecer da ameaça de escassez. A sensação que fica, diante da magnitude do problema, costuma ser de impotência. Daí a importância de engajar as crianças o quanto antes na preservação desse elemento essencial para a vida.

O oceanógrafo e professor da USP, Alexander Turra, defende que sensibilizar as crianças para essa causa passa por um trabalho com a emoção e a informação. Ele fala a partir de sua experiência com o mar, mas a ideia pode ser estendida a qualquer ecossistema.

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De que maneira podemos sensibilizar as crianças para proteger as águas?

“O oceano é mágico, ele está no imaginário das pessoas e das crianças em função da sua beleza, dos seres que o habitam. A gente tem a possibilidade de sensibilizá-las em duas frentes: de um lado pelo belo e, de outro, pelo conhecimento, pela informação sobre a tendência de degradação que temos visto”, explica Alexander, que é o responsável pelo Laboratório de manejo, ecologia e conservação marinha, do Instituto de Oceanografia da USP.

O fascínio exercido pelo oceano no imaginário humano é, como explica o pesquisador, um bom caminho para aproximar as crianças do tema, inclusive aquelas que não vivem no litoral, por meio de filmes, documentários, fotografias e, claro, livros sobre o assunto. “O fato de não estarem perto do oceano não é um limitante para que elas entendam a sua beleza e a sua importância. Dá para trabalhar com essa criança a partir de informações visuais, a partir das sensações que elas podem experimentar, inclusive por meio de realidade virtual.”

Capa do livro "A marcha das baleias", de Nick Bland, que pode começar uma boa conversa sobre a preservação dos aceanos

O livro A marcha das baleias, do querido autor Nick Bland, lançado pela Brinque-Book, faz essa “costura” da beleza do tema com o alerta sobre os riscos que os oceanos e a vida marinha correm de maneira muito divertida e, ao mesmo tempo, tocante. Na história, as baleias invadem as cidades, os trens, os parques e passam a conviver com as pessoas. Como são enormes, a confusão é garantida, e uma garotinha começa a questionar por que esses animais deixaram os oceanos. A resposta, claro, é que os homens poluíram tanto esse hábitat que ele se tornou inabitável.

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A ecóloga, escritora e analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Ana Paula Prates, concorda que o assunto em si é fascinante para as crianças. “Você descobre que 71% do planeta Terra é coberto por água do oceano e que esse oceano é o responsável por todo o ciclo da água. É essencial levar as crianças para conhecer rios e cachoeiras, e mostrar que tudo está interligado nesse ciclo”, diz. “E os livros são fundamentais para isso. Principalmente quando trazem informação científica adequada e correta, traduzida de maneira clara para que as crianças possam ler e gostar, com ilustrações interessantes. O livro abre todas essas portas.”

Para Alexander, outro aspecto fundamental é fazer com que as crianças se sintam agentes protagonistas dessa transformação, como parte do problema e parte da solução. “Isso é o mais importante, para que inventem ações criativas e estratégicas e sintam que é possível deixar, para elas mesmas e para as futuras gerações, um oceano limpo, saudável, bonito e seguro. Um oceano muito melhor tanto para a vida marinha como para as pessoas”, defende.

Baleias nadam em águas limpas em novo livro do autor Nick Bland, que pode ajudar as crianças a se sensibilizar para preservar as águas

 

O oceanógrafo ressalta ainda que, para que as crianças ajam como protagonistas, precisam ter a consciência de que esse papel é individual e, principalmente, coletivo. “E o coletivo é mais estruturante, mais duradouro, mais eficaz”. Essa conscientização ambiental coletiva, que também é política, pode e deve começar na infância, incluindo conversas sobre as propostas dos candidatos nas eleições deste ano.  

”É fundamental identificar quais são os políticos que têm um alinhamento com essa visão de conservação da natureza. A conservação da natureza não está em conflito com a prosperidade. Ela é, na verdade, a base de uma prosperidade duradoura, que precisa ser estimulada e compartilhada igualmente entre as pessoas.”

Alexander Turra, oceanógrafo

Ele comenta ainda sobre a implementação do Tratado Global dos Oceanos, um mecanismo global assinado entre os países para garantir que 30% das águas oceânicas sejam protegidas até 2030. A criação das áreas de proteção marinha é essencial para que os ecossistemas marinhos mantenham sua capacidade de se regenerar, que vem sendo fragilizada pela degradação e pelas atividades econômicas predatórias. A assinatura do Tratado envolveu a pressão de organizações como o Greenpeace e a WWF, que contam com a participação da sociedade para agir.

“Coletivamente, é preciso entender que temos um potencial muito grande de promover políticas e ações que realmente consigam fazer com que o oceano seja protegido e usado de forma sustentável”, argumenta o oceanógrafo. 

 

Como a degradação das águas afeta a vidas crianças?

O risco da falta de água nas cidades, a alteração da frequência das chuvas e a contaminação de rios e peixes por metais pesados do garimpo são alguns exemplos de como a degradação hídrica prejudica a vida das crianças. “A degradação da água, seja por esgoto ou por outros tipos de poluentes, torna o ambiente mais arriscado para o contato direto", alerta o oceanógrafo. “Um aspecto que impacta diretamente na vida das crianças é o alimento extraído do oceano, como peixes e frutos do mar”, que podem ser contaminados ou até desaparecer por conta da pesca predatória, por exemplo. 

Alexander explica que, ainda no caso específico das águas marinhas, a degradação faz com que o oceano perca a capacidade de funcionar e de gerar benefícios. “Também ocorre uma deficiência do oceano em produzir o oxigênio que a gente respira, que é muito importante para todos os seres vivos. Um oceano degradado é um oceano que não contribui para a nossa vida, especialmente para as crianças, que no futuro terão pela frente um ambiente muito mais comprometido do ponto de vista da sua beleza e da sua funcionalidade”, alerta o pesquisador.

Baleias brincam de pular corda no parque, depois de fugir de um oceano degradado pela poluição

Baleias pulando corda no parque - pode isso?

Outro problema é a diminuição da biodiversidade marinha, que resulta na extinção de uma gama de formas curiosas e belas de vida. “Isso já está acontecendo; animais grandes que se via no passado, a gente não vê mais. O oceano vai ficando pobre, e a nossa experiência, a possibilidade de reverenciar essa grande diversidade, fruto de um processo de evolução muito longo, de milhões de anos, se perde”, diz Turra. Ele argumenta que, se a degradação continuar, as futuras gerações vão perder ainda mais e talvez naturalizar a pouca diversidade.

 

Quais são as principais ameaças?

No caso específico dos oceanos, que é o ambiente degradado em A marcha das baleias, Alexander explica que há 5 grandes ameaças à sua biodiversidade e aos benefícios que ele oferece para a humanidade. Ele descreve que, atualmente, o oceano enfrenta uma fragilização por conta de impactos locais, que fazem com que ele perca sua capacidade de lidar com as grandes mudanças globais do clima. Por sua vez, essas mudanças também vão se manifestar localmente, numa combinação que ele chama de "tempestade perfeita". 

  1. Destruição de hábitats. A ocupação de áreas costeiras pelo ser humano, com a construção de casas, estradas, edifícios em locais não apropriados, provoca a destruição de manguezais, praias, restingas, que perdem a sua funcionalidade. Os mangues, por exemplo, ajudam a regular a quantidade gás carbônico na atmosfera, além de serem locais de reprodução e abrigo de uma diversidade de espécies aquáticas e terrestres.

  2. Pesca e captura excessiva de organismos marinhos. Peixes, camarões, lulas e lagostas são espécies prejudicadas pela pesca excessiva, mas há outras afetadas, por exemplo, pela pesca de arrasto de camarão, que causa a morte de vários outros organismos, que não são aproveitados.

  3. Espécies exóticas e invasoras. São aquelas que não ocorrem num determinado local, mas que chegam ali por conta do transporte marítimo. As espécies são presas no casco dos navios ou são transportadas na água de lastro, que é usada estabilizar os navios no mar. Esses organismos são levados de um lugar para outro e podem causar um desequilíbrio ecológico severo. 

  4. Poluição. Há vários tipos de contaminantes que podem ter diferentes efeitos na bioversidade, como o esgoto das cidades, fertilizantes e agrotóxicos utilizados na agricultura, o chamado lixo do mar (plásticos de variadas formas e tamanhos, bitucas de cigarro, vidro, metal etc), óleo de derramamentos, resíduos industriais e metais pesados. Alexander cita também os remédios consumidos pelas pessoas (anticoncepcionais, antidepressivos, antibióticos etc), que, pela urina, contaminam rios, estuários e, por fim, o mar e os ambientes costeiros.

  5.  Mudanças climáticas. Esse efeito global, que ocorre mundialmente em maior ou menor intensidade em alguns locais, contribui muito para a degradação do oceano. Há um agravamento dos efeitos sobre a bioversidade, por exemplo, em função da elevação do nível mar e um aumento de frequência de eventos climáticos extremos, como temperaturas muito elevadas e furacões. A acidificação e a falta de oxigenação do oceano também causam impactos severos, por exemplo, nos recifes de coral, que perdem a sua capacidade de proteger a linha de costa contra as próprias tempestades.  

 

Medidas práticas para preservar as águas no cotidiano

Como Alexander destacou, a ação individual das crianças é fundamental para a preservação das águas. Mas ela deve ser combinada com a ação estruturada e coletiva da sociedade, que precisa se fortalecer para promover políticas públicas que protejam o ambiente. Abaixo, o oceanógrafo dá dicas para que as famílias ponham em prática em casa e no coletivo.

  1. Ler livros informativos e de ficção de qualidade sobre o assunto. Como já dissemos lá no início, ler livros sobre mares, rios, chuva e animais que vivem na água é uma forma de sensibilizar as crianças para o cuidado e a proteção. Há muitos livros informativos de qualidade atualmente, que apresentam dados, ciência e curiosidades com texto e ilustrações envolventes. Os livros iniciam conversas sobre o tema e podem ser combinadas com filmes, documentários, séries e animações sobre o assunto, como sugeriu o professor da USP, Alexander Turra.
  2. Redução do uso de embalagens plásticas: Alexandre explica que é preciso reduzir as embalagens a um mínimo possível, uma vez que elas são usadas, por exemplo, para ampliar a vida útil dos alimentos, e isso é importante. “Mas a gente tem que ter uma responsabilidade tanto com o que a gente consome quanto com aquilo que a gente descarta, para que esses elementos não vão parar no ambiente”, diz.
  3. Consumir menos e localmente: Também podemos contribuir com a qualidade da água quando consumimos de maneira mais consciente. Isso porque muito do consumimos vem de fora do Brasil por meio do transporte marítimo. “Com isso, se intensifica a invasão de espécies exóticas, a degradação de manguezais e a própria poluição, pela emissão de gases de efeito estufa na atmosfera com a queima dos combustíveis das embarcações”, enumera o oceanógrafo. Quando consumimos produtos de negócios locais, diminuímos esse impacto. Por isso, é importante buscar saber de onde vêm os produtos e alimentos que compramos para a nossa casa.
  4. Evitar o consumo de espécies vulneráveis: A pesca excessiva, predatória e até ilegal faz com que chegue às mesas brasileiras espécies que estão em risco de extinção. Isso acontece com peixes marinhos e também de água doce, como é o caso do pirarucu, um dos maiores peixes da Amazônia e ameaçado pela pesca ilegal. De acordo com Turra, “há guias de consumo consciente de pescado que ajudam a evitar alimentos que possam, eventualmente, trazer um prejuízo adicional ao meio ambiente”.
  5. 30% oceano protegido de forma eficaz. Essa é a meta do Tratado Global dos Oceanos a ser atingida até 2030. “Enquanto sociedade, temos que pressionar os governos federal, estadual e municipal para que as áreas marinhas protegidas sejam criadas e gerenciadas de forma adequada”, defende Turra. 
  6. Políticas qualificadas para empreendimentos. De acordo com o pesquisador, é preciso melhorar as políticas relacionadas à liberação e aprovação de empreendimentos, com uma avaliação de impacto ambiental. Assim, os empreendimentos seriam controlados no seu potencial de geração de poluentes e de degradação ambiental.  
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