Daniel Munduruku: “A Letrinhas ofereceu ao Brasil a possibilidade de redescobrir a própria identidade ancestral”

17/10/2022

Filho do povo de Munduruku, de Belém (PA), Daniel Munduruku foi o primeiro autor de literatura infantil de origem indígena. E por muitos anos foi o único. A Companhia das Letrinhas publicou seu primeiro livro, Histórias de índio, ilustrado por Laurabeatriz, em 1996. Desde então, já foram 57 obras, algumas delas pela grupo Companhia das Letras, como Vó coruja (Companhia das Letrinhas, 2014), O homem que roubava horas (Brinque-Book, 2007) e Kabá Darebu (Brinque-Book, 2002) e Catando piolhos, contando histórias (Escarlate, 2014), entre outros. 

Dando visibilidade a diferentes vozes, a Letrinhas revolucionou o modo de fazer literatura
(Daniel Munduruku, autor)

Vencedor de prêmios Jabuti em 2017 e 2021, Daniel é professor universitário e fundador da editora Uk’A, que publica autores de origem indígena. Em entrevista ao Blog da Letrinhas, ele relembra a primeira vez que teve uma oportunidade de publicar e conta como a relação com o público se transformou com o passar dos anos, mas segue cheia de carinho. “Agora, com as redes sociais, muitos leitores que eram crianças na época da leitura me reconhecem e seguem lendo meus outros livros e continuam mandando mensagens sobre suas leituras”, diz. 

*Para comemorar os 30 anos da Companhia das Letrinhas (em 2022) e o Mês das Crianças, durante outubro você confere uma série de entrevistas exclusivas com grandes autores e ilustradores brasileiros que fazem parte dessa história, sejam nossos primeiros parceiros, sejam aqueles que ganharam os maiores prêmios de literatura infantil. Acompanhe tudo no Blog da Letrinhas, no site criado especialmente para essa festa e nas nossas redes sociais. 

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Daniel Munduruku

Como começou a sua relação com a Companhia das Letrinhas? Como foi fazer o primeiro livro para a editora e o que mais te marcou nesse processo?

Acredito que só consegui publicar meu primeiro livro graças à generosidade da Letrinhas. Já havia enviado meu original para outras editoras e todas elas respondiam de forma negativa. A Letrinhas me deu um “talvez” e isso foi relevante para poder publicar o livro que me abriria as portas da literatura. 

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A Companhia das Letrinhas está completando 30 anos em 2022. Nessas três décadas, qual foi a transformação mais importante na literatura infantil, tanto em termos de texto como ilustração e produção gráfica, na sua avaliação, e por quê?

A Companhia das Letrinhas trouxe uma qualidade editorial que fez a diferença para colocar a literatura infantil num patamar relevante. Sempre se apresentou como uma editora inovadora trazendo temas que estavam escondidos da sociedade brasileira. Dando visibilidade a diferentes vozes, a Letrinhas revolucionou o modo de fazer literatura, pois ofereceu ao Brasil a possibilidade de redescobrir sua própria identidade ancestral. Ela serviu como um instrumento de educação para nossas crianças e jovens. 

Poderia citar três livros infantis que foram mais importantes ou marcantes para você nesses últimos 30 anos? Dos publicados pela Letrinhas, qual você citaria?

- Histórias da Preta - Heloisa Pires, justamente por seguir na trilha de uma identidade brasileira que precisava ser expressada pelas vozes de pessoas pretas.

- Nós - Uma antologia de literatura indígenas - este livro é muito impactante porque traz as vozes de várias culturas originárias, suas diferenças, suas semelhanças e, sobretudo, suas histórias ancestrais.

- Tayó em quadrinhos - Kiusam de Oliveira. Acho este livro um primor por trazer para o debate temas muito relevantes para pensarmos a formação do Brasil.

Qual acontecimento relacionado ao processo de criação e produção dos livros ou ao feedback e interação com os leitores ficou na sua memória ao longo desse tempo? Poderia contar um pouco qual história mais te marcou?

Meu livro Histórias de índio me abriu muitas portas na sociedade brasileira. Foi por conta dele que me tornei conhecido no Brasil e ele também me deu muitas alegrias no contato com meus leitores. Recebi cartas - quando a internet não era ainda muito popular - depois muitos e-mails elogiando o livro. As pessoas - adultas e crianças - me contavam como tinham sido alertadas para a existência dos povos indígenas, a partir da leitura dele. Agora, com as redes sociais, muitos leitores que eram crianças na época da leitura me reconhecem e seguem lendo meus outros livros e continuam mandando mensagens sobre suas leituras. E por aí vai.

Como você vê/avalia a participação da Companhia das Letrinhas no mercado editorial e na própria história da produção literária para a criança? 

A Companhia das Letrinhas é uma das mais criativas editoras para crianças que atuam no mercado editorial. Ela tem mantido sua qualidade e incorporado outros selos igualmente qualificados para ampliar sua rede de atendimento ao segmento infantil. Apesar das tantas mudanças políticas passadas nos últimos tempos, a editora não tem deixado de acreditar que um país se faz pela cultura e, consequentemente, pela disseminação da leitura e literatura de qualidade. Sou muito fã da linha editorial e tenho certeza que ela presta um serviço maravilhoso para a sociedade brasileira. 

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Além dos livros, as crianças têm várias fontes de entretenimento, como telas, vídeos, streamings, games. Como acha que a literatura infantil será nos próximos 30 anos? Qual o grande desafio que autores e leitores terão?

O mundo está num processo de revolução digital. O mercado tem que adequar a essas novas modalidades de leitura e escrita para continuar atendendo às novas demandas da sociedade. Isso não tem mais volta. Caberá aos autores de livros para crianças compreender essa revolução e conseguir criar histórias cada vez mais atrativas e interativas, que ajudem as novas gerações a compreender seu papel no mundo com inteligência e comprometimento. Isso certamente não é fácil, mas o papel da literatura não é facilitar, mas incomodar pelo uso das novas linguagens que estão sendo desenvolvidas na atualidade. Daqui a 30 anos não consigo imaginar, confesso. Sou uma pessoa que vive o presente, um dia por vez e o exercício de profetizar não me apraz. Prefiro estar vivo para ver o que irá acontecer.

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